Famílias de baixa renda mudam os hábitos de consumo para tentar reduzir os gastos
Um dos setores mais sensíveis à alta generalizada de preços, é no supermercado que a população sente de forma mais intensa e rápida o peso da inflação. O encarecimento dos alimentos, que impacta de forma mais direta famílias de baixa renda, obriga as pessoas a mudarem hábitos de consumo na tentativa de aliviar os gastos. Mas isso nem sempre é possível.
Mãe de dois filhos, a garçonete Graziele Navarro, 29, diz que uma compra de R$ 200 contendo mistura, arroz, feijão, legumes e verduras não é suficiente para durar nem quatro dias. “A gente sai do supermercado desanimada, com a sensação de que não estamos levando nada. Pra fazer render, estamos tentando racionar algumas coisas em casa’, desabafa.
O que é sentido todos os dias no bolso dos consumidores é também evidenciado pelos números. O Índice de Preços dos Supermercados (IPS) de março fechou em 2,64% – o maior da série história para o mês iniciada em 1994. O índice é apurado pela Associação Paulista de Supermercados (Apas) em conjunto com a Fipe e tem objetivo de acompanhar as variações relativas de preços praticados no setor supermercadista ao longo do tempo. O IPS acumulado em 12 meses chegou a 15,22% – índice superior ao da inflação oficial (IPCA), que fechou no acumulado do ano até março em 11,3%.
A entidade atribui a pressão no preço dos alimentos a fatores internos e externos, como o conflito entre a Rússia e Ucrânia, a alta dos combustíveis, a desorganização das cadeias logísticas e a inflação generalizada no mundo. Todos esses fatores pressionam os preços no Brasil e refletem na ponta do consumo, onde estão os supermercados e a população.
‘A expectativa para o primeiro semestre deste ano é de instabilidade em muitos setores da economia, principalmente naqueles que são sensíveis aos preços internacionais das commodities. O processo de alta é generalizado. A desmobilização da cadeia de suprimentos no mundo produz inflação mundial no curto prazo, já que a realocação da cadeia produz elevação no custo logístico’, explica Diego Pereira, economista da Apas.
Para o economista Hipólito Martins, a sensação dos consumidores de que a inflação atinge de forma mais intensa o preço dos alimentos no supermercado é algo real. E, que ela é mais perceptível quando se analisam os dados separadamente. Na média, a alta acumulada no preço de bebidas e alimentos é de 11%, segundo o IPCA. ‘Mas ao analisar os principais produtos separadamente, tem item que subiu mais de 70%%’. Ainda segundo o especialista, mais de 80% do universo de cerca de 400 produtos medidos pelo IPCA para calcular a inflação tiveram alta.
‘O alimento é um tipo de produto que não tem como ficar de fora do orçamento. Por isso, é no supermercado que o consumidor sente com mais intensidade a inflação’.
O levantamento destaca a alta das verduras e legumes, que tiveram inflação de 8,93% em março, com acumulado de 31,58% nos últimos 12 meses. Entre os produtos que tiveram mais alta estão: tomate (41,27%), repolho (34,24%) e cenoura (32,23%).
Metodologia
De acordo com a Apas, o Índice de Preços dos Supermercados é composto por 225 itens pesquisados mensalmente em seis categorias: semielaborados (proteína animal e cereais); industrializados; produto in natura; bebidas; artigos de limpeza e artigos de higiene e beleza.
Lista bem menor
Para os consumidores, a ida até o supermercado se tornou um exercício de contenção de gastos. Com a lista de produtos em mente e o dinheiro calculado, a auxiliar de cozinha Raquel Alves, 28, teve que deixar alguns produtos para trás. ‘Não deu para levar tudo, tive que deixar algumas coisas no caixa porque o dinheiro não ia dar’.
Dividida em seis sacolas, a compra de R$ 88 contava com um frango inteiro, verduras e legumes, produtos de limpeza e alguns condimentos. Ela conta que o tomate, vendido a R$ 13 o quilo, foi o que mais a assustou. ‘Peguei só quatro unidades para não ficar sem em casa. A compra toda não vai durar a semana’.
A aposentada Leonor Quile, 80, precisou reduzir a lista de compras e levar apenas o que está com desconto. A consequência é ter que voltar ao supermercado mais de uma vez na semana. ‘A gente compra de pouco em pouco e vai comparando os preços. Tem semana que venho três vezes no mercado’. Na última ida, ela pagou R$ 66 em uma compra de pouco mais de dez itens entre pão, farinha, leite, óleo e alguns legumes.
A arquiteta Kelly Pimenta, 30, reduziu bastante a quantidade de produtos que compra e precisou, inclusive, negociar com o filho de 13 anos. ‘Tive que cortar algumas ‘besteiras’ como iogurte e biscoitos. Conversei com ele expliquei que a situação está difícil’. Outra estratégia foi mudar um pouco os hábitos alimentares e aumentar a frequência de visitas ao supermercado. ‘Estou evitando os derivados do queijo, então a lasanha está ficando de fora. Também reduzi bastante o tamanho das compras e só venho em dia de promoção’.
O radialista aposentado José Amâncio da Silva, 71, diz que roda os supermercados da cidade em busca de melhores preços. Mas como a alta é generalizada, ele também precisou diminuir o volume das compras. ‘Não dá pra comprar quase nada. A gente está comprando menos’. (FN)